Como foi a evolução do mundo das milhas nas últimas décadas? Será que está melhor ou pior do que no passado?
Para responder a essa pergunta, vamos voltar no túnel do tempo e analisar alguns indicadores da época e compará-los com o cenário atual.
Vamos voltar até o ano de 2009? Por quê? Alguns acontecimentos marcantes ocorreram justamente nesse ano e será interessante para avaliarmos as mudanças.
Retrospectiva 2009:
O fato mais marcante do ano de 2009 foi a posse de Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

Tive o privilégio de conhecê-lo e tirar essa foto com ele em Melbourne, na Austrália, no ano de 2023. Mas como estava a economia e o mundo das milhas em 2009?
- O dólar (média anual) valia cerca de R$2,00.
- O salário mínimo era de R$465,00.
- A cesta básica de alimentos (sem produtos de higiene e limpeza) segundo o DIEESE era de R$228,19 em São Paulo.
- A passagem ida-e-volta mais barata do Brasil aos EUA em classe econômica custava em torno de USD500 pela Avianca.
- A Smiles lançava o resgate com tabela fixa aos EUA: 25.000 milhas o trecho em classe econômica e 37.500 em classe executiva, voando American Airlines, e havia muita disponibilidade de assentos e datas.
- Era fundada a empresa Art Viagens e Turismo Ltda., que ficou conhecida como HotMilhas, cuja principal atividade era a compra de milhas e a emissão de passagens.
- O Banco do Brasil lançava um serviço inédito: o pagamento de contas e boletos no cartão de crédito sem a cobrança de juros, que além de tudo gerava pontos!
Mas de lá pra cá, muita coisa mudou, infelizmente pra pior, vamos conferir?
1. Variação do dólar:
O dólar médio de R$2,00 até sofreu uma queda nos dois primeiros anos, mas em 2015 (crise econômica e rebaixamento do rating do Brasil por agências internacionais) e especialmente em 2020 (Covid-19 e a redução dos juros no Brasil) o dólar sofreu forte valorização, chegando a superar R$5,00 (valorização superior a 150% até 2026):

2. Salário-mínimo:
O salário-mínimo cresceu numa média de quase 8% ano ano, saltando de R$465 para R$1.621 no ano de 2026, um aumento de 250% no período.

3. Preço da cesta básica (SP):
Se você se assustou com o aumento do salário mínimo, irá ficar ainda mais com o preço da cesta básica de alimentos segundo o levantamento feito pelo DIEESE, que subiu de R$228,19 em 2009 para R$965,47 em 2026 (323% de aumento).
Em 2009 com um salário mínimo era possível comprar 2,04 cestas básicas, hoje ele só permite comprar 1,68, uma queda de 18% do poder de compra da população mais carente.

4. Passagem aos EUA:
Nos dias de hoje ainda é possível encontrar bilhetes ida-e-volta aos EUA por volta de USD500 com a mesma Avianca. Contudo, vale a pena salientar que a qualidade dos assentos da Avianca piorou de lá pra cá, após a companhia sair do processo de recuperação judicial em 2021, se tornando uma low cost.

5. Tabela fixa aos EUA:
Os resgates de passagens sofreram uma grande mudança, e não apenas no preço. Se antes era possível emitir uma ida em classe econômica por 25.000 milhas Smiles, hoje são necessários 62.400 milhas se você for assinante do Clube Smiles ou tiver o status Diamante no programa. Mas a grande piora foi na disponibilidade: se antes era possível encontrar disponibilidade praticamente todos os dias (exceto altíssima temporada), agora a disponibilidade de voo direto é pequena (41 datas disponíveis para os próximos 330 dias).

E se a comparação for em classe executiva, além do valor ter subido de 37.500 milhas Smiles para cerca de 180.000 milhas o voo direto, não existe (no dia da pesquisa) nenhuma data disponível para os próximos 330 dias, ou seja, ficou quase impossível viajar deitado a um custo acessível.

6. HotMilhas pede Recuperação Judicial:
A maior empresa de comercialização de milhas, a HotMilhas, junto com a Max Milhas, ambas integrantes do grupo 123 Milhas, entrou com pedido de Recuperação Judicial em 2023, com uma dívida de R$2,4 bilhões junto a centenas de milhares de credores.

A empresa já dava (antes do pedido de RJ) vários sinais de que apresentava uma situação delicada e eu alertei sobre os riscos na época, apesar de vários “experts” de milhas ignorarem o fato e até afirmarem que a HotMilhas estava saudável e em evolução.
Enfim, várias pessoas acabaram se afundando em dívidas com a situação, e ainda sonham em receber algo conforme o Plano de Recuperação, que mais parece um plano infalível do Cebolinha e com poucas chances de ser cumprida.
7. Pagamento de contas no cartão de crédito:
Infelizmente a possibilidade de pagamento de contas/boletos no cartão de crédito sem a cobrança de juros ou tarifa é coisa do passado! Mas com um pouco de inteligência financeira e conhecimento do mundo das milhas ainda é possível aproveitar esse serviço para continuar gerando milhas e viajar a um custo bem acessível.
Comparativo 2009 x 2026:
E então, caro leitor, qual a sua opinião? O ano de 2009 era melhor ou prefere 2026?
Em quase todos os exemplos citados, o cenário atual é muito pior que 2009, concorda? A única exceção é o preço da passagem aérea pagante que manteve o preço de USD500, apesar da piora dos serviços.
O grande vilão durante esse período foi justamente a inflação!

Enquanto o dólar e um bilhete em classe econômica para os EUA subiram cerca de 150%, a cesta básica quadruplicou de preço e um resgate muito raro de encontrar em classe executiva para os EUA custa quase 5x o valor de 2009. O preço de um bilhete pagante promocional manteve-se estável em dólar, ou seja, em reais subiu 155%, pois o dólar valia R$2,00 em 2009 e vale hoje R$5,10.
Mas sabia que existe uma “moeda” que perdeu mais que o real durante esse período? As milhas! No passado, o milheiro Smiles chegou a valer mais de R$30 e hoje vale cerca de R$15-17. O milheiro da Azul também se desvalorizou mais de 50% após a pandemia, ou seja, fazer uma poupança em milhas é sinônimo de perder dinheiro, ainda mais considerando uma SELIC de 14,25% ao ano, concorda?
CONCLUSÃO:
Agora te pergunto, o que você preferiria?
A) um programa A em que a emissão custasse X milhas e cada 1.000 milhas desse programa valessem Y, e depois de 15-20 anos a mesma emissão continuasse custando X milhas e o milheiro valesse Y corrigido pela inflação? ou
B) um programa B em que a emissão custasse X milhas e cada 1.000 milhas desse programa valessem Y, e depois de 15-20 anos a emissão custasse 3X e o milheiro valesse Y/3?
Acho que ficou claro que deixar seus recursos investidos em milhas dos programas brasileiros (programa B) não foi ruim, foi um péssimo negócio. E se além de investir neles você resolveu vender para a HotMilhas ou Max Milhas, o resultado foi desastroso!
O mercado das milhas sofreu uma involução nessas quase duas décadas, concorda? Eu posso te garantir que sim, pois vivenciei todo esse período e atualmente o mundo das milhas não é mais como antigamente…
E recomendo cautela pois alguns riscos continuam à solta no mercado como não já falei no Instagram e até foi tema de um artigo por aqui.
Mas isso quer dizer que investir em milhas é sempre ruim? Obviamente que não, se você fizer a lição de casa certinho conseguirá obter bons retornos, sem perder da inflação, e é exatamente isso que vamos aprender nos próximos episódios!

Excelente conteúdo Augusto.
Excelente depoimento, rico em informações, parabéns!!
Pena não ter conhecido sobre isso antes. Mas também acredito na maturidade, que o tempo ajuda e mostra que tudo vem no seu tempo.
O que podemos e devemos fazer é sempre se informar.
Agradeço a oportunidade de estar participando deste maravilhoso trabalho que vc faz!
Grande abraço!