No artigo da semana passda, descobrimos que no período de 2009 a 2026 o grande vilão do mercado, inclusive no mundo das milhas, foi a inflação, correto?
Na aulinha de hoje vamos aprender quais as principais causas da inflação, relacioná-las no mercado da aviação e em seguida no mundo das milhas.
Causas da inflação:
A inflação pode ser ocasionada por diversos motivos e vou citar alguns dos principais:
- desequilíbrio entre oferta e demanda: quando a demanda por um determinado produto ou serviço aumenta mas a oferta não acompanha, a tendência é de aumento nos preços.
- aumento nos custos de produção: se o custo dos insumos ou da mão-de-obra aumenta, eles são repassados ao consumidor final.
- emissão excessiva de papel-moeda: quando a impressão de dinheiro supera a quantidade de mercadorias e produtos em circulação, ocorre uma elevação dos preços.
1) Desequilíbrio entre oferta e demanda:
Durante o período pré-pandemia, o turismo internacional crescia a 5% ao ano, atingindo 1,41 bilhões de turistas internacionais que viajaram durante o ano de 2019.
No ano de 2024 as viagens internacionais finalmente alcançaram aqueles níveis, chegando a 1,40 bilhões de turistas.
Em 2025, o crescimento foi de 4% e atingiu 1,52 bilhões de turistas internacionais, em função da maior conectividade aérea, facilitação de visto em vários países e um crescimento robusto de mercados emissores tradicionais.
O Brasil foi um dos destinos com maior crescimento de visitantes estrangeiros entre 2019 e 2025, que passou de 6,3 milhões para 9,3 milhões no período, um crescimento de 46% (Fonte: OCDE), ficando à frente de países como o Japão (34%), Portugal (20%), Espanha (16%) e França (12%). Mas quem ficou na nossa frente?

Coincidentemente eu visitei Marrocos e Egito no ano de 2025, então preciso urgentemente visitar a Arábia Saudita!
E a demanda por viagens aéreas deve continuar aumentando e dobrar nos próximos 25 anos, segundo um relatório produzido pela IATA. Ásia-Pacífico (economias emergentes com grandes populações) e África (forte potencial de crescimento econômico e populacional) terão os maiores crescimentos, seguido do Oriente Médio (facilidade de conexão).
Por outro lado, a conectividade aérea está em risco com a redução significativa de novas aeronaves para as companhias aéreas conseguirem ampliar o número de rotas. Após atingir mais de 70 mil rotas em 2019, o número não chegou a 69 mil em 2025, além de que várias companhias estão reduzindo a frequência de voos em algumas rotas por conta dos custos (combustível, manutenção, peças e serviços aeroportuários) elevados.
Enfim, este é o primeiro motivo para o aumento nos preços das passagens aéreas.
2) Aumento nos custos de produção:
Neste item, o fator mais preocupante é o aumento no preço do combustível por conta dos conflitos no Oriente Médio.
O litro do querosene de aviação (QAV) custava cerca de R$3,40 no início de 2026 e praticamente dobrou em poucos meses, chegando próximo a R$7,00. Isso significa que abastecer o tanque cheio de um Airbus A380 (320 mil litros) chegaria a custar R$2,24 milhões.

No Brasil, o peso do combustível é ainda mais sensível devido à combinação de dólar valorizado, tributação e dependência da política internacional de petróleo. Outro agravante é que aqui o QAV representa aproximadamente 36% dos custos e despesas totais das empresas áreas e com esse reajuste ele pode chegar facilmente a 50%.
Uma coisa interessante que aprendi durante pesquisas para escrever este artigo é que o QAV nos EUA representa bem menos (20% em condições normais) em relação ao Brasil. Vou abordar sobre isso num artigo em breve.

Bom, deu pra entender o impacto que o aumento do QAV sobre o preço das passagens aéreas, certo? E isso se replica ao mundo das milhas, pois o valor dos resgates é diretamente proporcional ao preço dos bilhetes pagantes (exceção da tabela fixa!)
Mas existe um outro componente muito relevante para o mundo das milhas, que analisaremos a seguir:
3) Emissão excessiva de papel-moeda:
Já imaginou se você tivesse uma máquina de imprimir dinheiro na sua casa? Em qualquer necessidade, bastaria imprimir mais cédulas e ir gastando como quiser!
Mas se o aumento do dinheiro nas mãos da população não viesse acompanhado de um aumento da produção, significaria muito mais dinheiro em circulação para comprar a mesma quantidade de produtos e a consequência disso seria o aumento dos preços (inflação).
E para que isso não aconteça, a única instituição autorizada a emitir papel moeda é o Banco Central. Na verdade, quem emite é a Casa da Moeda, desde que autorizada pelo BC. E isso é que controla a nossa economia e evita a inflação.
Mas o mundo das milhas funciona do mesmo jeito?

Infelizmente não existe nenhum órgão regulador no mundo dos pontos e milhas, e as empresas emitem moeda como elas bem desejarem. E esse é o principal motivo causador da inflação nos resgates das passagens aéreas!
Vamos voltar no tempo para confirmar essa tese?
O início da inflação no mundo das milhas:
Como escrevi no artigo sobre a “Evolução ou Involução do mundo das milhas”, no ano de 2009 a Smiles lançou o resgate para os EUA por 25.000 milhas em classe econômica ou 37.500 milhas em classe executiva, com grande disponibilidade de assentos e de datas. Lembro-me de ter emitido 5 assentos na executiva para toda a família viajar com conforto, e também porque a diferença de valor era pequena (12.500 milhas).
Mas no ano de 2012, mais especificamente no dia 24 de junho, a Smiles iniciou a venda de milhas para seus clientes. Inicialmente com preços não muito atraentes: R$75,00 o milheiro, e R$2.040,00 se comprasse um lote de 40.000 milhas. Pelo valor muito alto, não trouxe a princípio grandes impactos sobre os resgates do programa.
Em 01/01/2013, a Smiles se tornou uma empresa independente da Gol, e em abril realizou sua abertura de capital (IPO) na bolsa de valores. E daí começaram algumas mudanças…
Em setembro de 2013, a primeira novidade: o lançamento do Clube Smiles, pelo valor de R$30,00 por mês, que oferecia 1.000 milhas mais bônus adicional nas transferências de pontos de bancos (mas nada comparado a hoje).
A conjugação de venda de pontos, assinatura de clube e transferências bonificadas mais agressivas trouxe o primeiro resultado: em abril de 2014 a Smiles anunciou um reajuste agressivo de sua tabela de resgates, especialmente na classe executiva:

Um trecho em classe executiva do Brasil aos EUA subiu de 37.500 para 85.000 milhas Smiles, o mesmo valor com destino para Europa (antes, 52.500) e também entre América do Norte e Europa (antes, 30.000).
Mas calma que esse foi apenas o começo da inflação!
O crescimento da inflação no mundo das milhas:
Em 2014 o bônus de transferência de pontos para o programa Smiles era conforme o status que você possuía: 10% para clientes Prata, 15% para Ouro e 20% para Diamante.
Já em 2015, uma mudança sutil mas relevante: a bonificação era crescente não mais pelo status no programa, mas pela quantidade de pontos transferidos: 10% transferindo até 9.999 pontos, 20% até 49.999 pontos e 30% a partir de 50.000 pontos.
Isso começou a aumentar a quantidade de milhas Smiles em circulação no mercado, sem acompanhamento da quantidade de assentos disponíveis para resgate no programa. Adivinha o que aconteceu?

Em agosto de 2015 a Smiles anunciou o fim da tabela fixa para resgates e começou a adotar a precificação flexível, com variação conforme a oferta e a demanda. Muita gente reclamou, diziam que iriam cancelar o Clube Smiles pra sempre, que iriam buscar outros programas de milhas melhores, etc.
Mas a inflação chegou com força no ano seguinte, com a chegada de uma poderosa empresa!
A consolidação da inflação em todo o mundo das milhas
Se o programa Smiles começou a adotar a bonificação crescente conforme a quantidade de pontos transferidos mas a maioria não tinha tantos pontos, como consegui-los?

Os sonhos dessas pessoas eram:
– poder acumular muitos pontos para transferências com maior bonificação;
– poder assinar algum clube mensal como a do Smiles para ganhar cada vez mais pontos;
– poder juntar ainda mais comprando esses pontos ou acumulando através de compras em parceiros.
Em maio de 2016 era criada a Livelo, programa de pontos do Banco do Brasil em parceira com o Bradesco. Ela já nascia com cerca de 10 milhões de clientes oriundos dos cartões das duas instituições financeiras.
Em outubro era lançado o Clube Livelo, inicialmente oferecendo 500 a 7.000 pontos por mês, mais bônus extras de 2.500 a 16.000 no primeiro ano.

Em junho de 2017 a Livelo liberou o cadastro para qualquer pessoa não cliente do BB ou Bradesco, aumentando ainda mais a quantidade de clientes.
E desde o lançamento, começou a oferecer pontos adquirindo produtos de seus parceiros: inicialmente 3 pontos por real, subindo para 8 nos anos seguintes e chegando a 10 em 2019, e crescendo cada vez mais.

Foi uma das formas que mais utilizava para acumular pontos até o ano de 2023. Desde então, comecei a observar e entender a estratégia dessas compras bonificadas e reduzi drasticamente essa forma de acúmulo.
Aguarde um futuro artigo onde pretendo explicar o cenário atual das compras bonificadas.
Conclusão:
Com essa emissão desenfreada de pontos e milhas no mercado, obviamente que o resultado não poderia ser outro: a temida inflação!
Nos últimos anos, a Livelo piorou a paridade de transferências para diversos programas internacionais, encerrou com outras sem prévio aviso, prejudicou milhares de clientes assinantes do Clube Livelo desde o início, fez novas parcerias que prejudicaram clientes que resgataram seus pontos na Droga Raia e Drogasil sem saberem e com um valor excelente (para a Livelo e péssimo para o cliente), etc. O resultado?

Para a Livelo foi excelente: superou a marca de 60 milhões de clientes e mais de 600 empresas parceiras, faturou R$6,5 bilhões no ano de 2025 e pretende chegar a R$11 bilhões até 2030.
Para os clientes, um desastre! Seu milheiro não para de se desvalorizar: inicialmente valendo R$42,00 nos primeiros anos após o lançamento, vem se desvalorizando ano após ano e hoje não passa dos R$30,00, com perspectivas de continuar em queda. E foi um dos principais, senão o principal causador da inflação das milhas nos últimos anos.
Caro leitor, se você chegou no mundo das milhas há mais de 10 anos, conseguiu aproveitar as melhores oportunidades disponíveis no mundo das milhas. Hoje elas ainda existem, mas estão cada vez mais raras, especialmente nos programas nacionais, destino quase que obrigatório para quem possui pontos Livelo.
Futuramente irei mostrar como acumular pontos e milhas com sabedoria no cenário atual, para ter maiores chances de emissão e fugindo dessa temida inflação!

Excelente artigo, Augusto.
Seria legal se conseguisse incluir o histórico de programas internacionais também além da AA, principalmente Avios.
Teoricamente, se você compra pontos hoje da AA e os deixam parados por anos, entende-se que o dinheiro investido está indiretamente sendo corrigido pela inflação (adotando como premissa que a tabela de resgates se mantenha a mesma).
Gostaria de saber se o mesmo ocorre com os avios. Por exemplo, supondo que eu invista 140.000 Avios na Qatar hoje, será que esses 140.000 pontos serão suficientes para emitir uma Qsuites GRU-DOH DOH-GRU daqui a 5 anos?
Mais uma vez, obrigado pelo seu artigo – vejo poucas pessoas comentando sobre. Talvez por ser um assunto mais técnico e avançado.
Abs,
Pedro
Excelente abordagem! Muito conhecimento demonstrado e sabedoria, tanto pela vivência como pela formação.
Muito bom, bela pesquisa!